Exposição “Asa de Chronos” no Centro Universitário MariAntonia da USP convida a uma jornada pelas dimensões do tempo e da eternidade, reunindo obras impactantes de artistas renomados.
“Quanto tempo o tempo tem?” Essa pergunta instigante, proposta pelo curador Paulo Herkenhoff, serve como ponto de partida para a exposição “Asa de Chronos”. A mostra, em cartaz no Centro Universitário MariAntonia da USP até março de 2026, não se limita a apresentar o tempo como a mera passagem dos ponteiros de um relógio, mas o explora como um conceito profundo que permeia a existência humana.
Com curadoria de Paulo Herkenhoff, reconhecido por seu trabalho como ex-curador-adjunto do MoMa e curador da 24ª Bienal de São Paulo, a exposição reúne dez obras de onze artistas talentosos. Entre eles, destacam-se nomes como Ailton Krenak, Cildo Meireles e Regina Silveira, cujas criações oferecem perspectivas únicas sobre o tempo e a eternidade.
Para criar uma atmosfera envolvente, Herkenhoff optou por uma iluminação sutil, com a sala em penumbra, realçando as obras através de focos de luz intensos, muitas vezes produzidos pelas próprias instalações. Essa abordagem busca intensificar a imersão do público na complexidade do tema abordado, conforme divulgado pelo Centro Universitário MariAntonia da USP.
A Eternidade em Movimento e a Dualidade do Círculo Dourado
Um dos destaques da exposição é a instalação “Eternidade” (2025), criada por Sandra Cinto e Albano Afonso. A obra apresenta um círculo dourado pintado na parede, sobre o qual a palavra “eternidade” é projetada. Uma esfera de cristal giratória, posicionada em frente ao projetor, simula o movimento de ondas, conferindo dinamismo ao conceito imaterial da eternidade.
Originalmente concebida em 2011 para uma exposição em Lisboa, a peça homenageava um curador brasileiro falecido, utilizando a projeção como forma de expressar o intangível. Para a mostra no MariAntonia, os artistas integraram o círculo dourado, um elemento recorrente na obra de Sandra Cinto. A artista explora o círculo na tradição budista, onde representa o sem início e fim, o eterno e o transitório, ecoando o ciclo contínuo do tempo.
O dourado, por sua vez, foi incorporado à arte de Cinto após pesquisas sobre seu uso histórico. “Na pintura bizantina da Idade Média, o dourado era usado como simbologia de um espaço metafísico. Nas chinesas e japonesas, ele também tinha certa conotação espiritual, de transcendência”, explica a artista. A obra, apesar de seu nome, possui um tempo de vida determinado, cessando sua existência quando a projeção é desligada.
Esculturas que Derretem e Poemas que Permanecem no Tempo
Em contraste com a efemeridade de “Eternidade”, a escultura em bronze “A Fuga das Horas” (2023), de Shirley Paes Leme, transcende o período da exposição. A artista, que trabalha com conceitos não tangíveis como ar, fumaça e literatura, transformou uma frase de um de seus poemas em bronze. “Essa obra usa a palavra porque, depois de falada, ela se esvai, ela some, derrete no tempo”, afirma Leme, descrevendo o processo criativo que envolveu congelar água derretida com a escrita e, posteriormente, reproduzir a imagem em 3D e bronze.
O Macaco Resiliente e a Ânsia pelo Infinito
A pintura “O Guardião da Luz” (2020-2022), de Fernando Lindote, integra a série “Homens Evoluem”. A obra retrata um macaco em uma árvore, segurando uma vela na escuridão, com o rabo contorcido em um símbolo de infinito. Lindote explica que a figura do primata e o infinito representam a **resiliência humana**, a persistência em buscar a luz em meio às adversidades.
Outra obra que aborda a temática do infinito é a pintura “Ânsia de Infinito…” (2023), de Estevão Parreiras. Inspirada na história de Santa Luzia, a obra apresenta um garoto segurando uma bandeja com olhos e uma folha. A narrativa de Santa Luzia, que teve seus olhos retirados e, segundo uma das versões, novos surgiram, ressoa com a ideia de **eternização da figura no imaginário popular** através de histórias recontadas, demonstrando que o tempo não para.
A exposição “Asa de Chronos” oferece um panorama rico e multifacetado sobre o tempo e a eternidade, convidando o público a refletir sobre essas noções fundamentais da existência humana através da arte contemporânea. A mostra fica em cartaz no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 258, Vila Buarque) de terça-feira a domingo e feriados, das 10h às 18h, com entrada gratuita até 15 de março de 2026.