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Museu do Ipiranga Revela Debret: Gravuras Originais e Diálogos Contemporâneos em Exposição Gratuita Imperdível

Museu do Ipiranga Abraça o Legado de Debret com Exposição Inovadora e Gratuita

O Museu do Ipiranga da USP abre suas portas para uma imersão na obra de Jean-Baptiste Debret, pintor francês que registrou o Brasil entre 1816 e 1831. A exposição “Debret em Questão – Olhares Contemporâneos” reúne 35 gravuras originais do artista, cedidas por importantes instituições como a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, o Instituto Itaú Cultural e o Instituto Moreira Salles.

A mostra vai além da mera exibição, propondo um diálogo entre o passado e o presente. Ao lado das obras de Debret, o público encontra criações de 20 artistas contemporâneos brasileiros e estrangeiros, que oferecem novas perspectivas sobre o material histórico. Essa curadoria instigante, que também desdobra o livro “Rever Debret” do sociólogo Jacques Leenhardt, busca explorar as conexões entre as imagens de Debret e a produção artística atual, refletindo sobre a diversidade de abordagens e suportes na arte contemporânea.

A exposição, que teve sua inauguração em 25 de novembro, permanecerá em cartaz até maio de 2026, com entrada totalmente gratuita, tornando-se um convite acessível para o público se aprofundar na história e na arte. Conforme informações divulgadas pela Agência SP, a curadoria destaca a complexidade da vida de Debret, que atuava como pintor da corte e, simultaneamente, como um observador atento do cotidiano, registrando “o que via nas ruas”.

Debret: Um Observador Crítico da Sociedade Brasileira

Jean-Baptiste Debret não se limitou a registrar paisagens. Sua obra é um retrato contundente da cultura escravocrata e das dinâmicas sociais do Brasil Colônia e Império. Em sua publicação “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, lançada em 1834 após seu retorno à França, Debret reuniu cerca de 800 desenhos e aquarelas, transformando 152 deles em gravuras acompanhadas de comentários textuais.

O livro, que documentava a natureza, os costumes e o cotidiano do Rio de Janeiro, apresentava um enfoque significativo em pessoas negras escravizadas e indígenas. Os registros da violência sofrida pela população negra eram particularmente fortes, o que levou à recusa do volume pela Biblioteca Imperial, pois a retratação do regime escravocrata violento não condizia com a imagem que o Império desejava projetar.

Debret também foi fundamental ao expor o protagonismo dos escravizados na construção do Brasil. Em sua série de gravuras “Pequena Enciclopédia dos Ofícios Exercidos pelos Negros”, ele destacava a engenhosidade e a essencialidade dessas pessoas no desenvolvimento do país, enquanto ironizava a inércia de alguns portugueses, que, segundo o artista, “recusavam qualquer modernização técnica, sob o pretexto de que a mão de obra forçada era disponível e ilimitada”.

Releituras Contemporâneas: Um Diálogo com o Passado

A exposição “Debret em Questão” se destaca pela forma como artistas contemporâneos dialogam com as obras de Debret. Gê Viana, por exemplo, utiliza colagens e manipulação digital para transformar imagens de sofrimento e opressão em celebrações de cor e alegria, reposicionando o protagonismo negro em um espaço de festa. Sua releitura da gravura “Um Jantar Brasileiro” transforma a cena de servidão em um momento de união familiar negra, com a obra intitulada “Sentem para Jantar”.

Denilson Baniwa, artista multimídia indígena, insere elementos tecnológicos em suas releituras, como o símbolo de wi-fi em “Arqueiro Digital”, redesenhando o Brasil sob uma perspectiva indígena e conectada. Heberth Sobral incorpora bonecos Playmobil em cenas de Debret, como em “Um Jantar Brasileiro” e “Negros Serradores de Tábuas”, utilizando fotografia digital impressa em tela.

Isabel Löfgren e Patricia Gouvea enriquecem as gravuras de Debret que retratam mães negras, adicionando objetos ligados à cultura afro-brasileira e ao culto popular, estabelecendo um “elo reparador entre essas mulheres e as divindades que as protegem”. Jaime Lauriano, com sua série “Justiça e Barbárie”, sobrepõe fotografias atuais de violência, especialmente linchamentos de homens negros, a títulos de gravuras de Debret, como “Negros ao Tronco”, provocando uma reflexão sobre a persistência da violência no Brasil.

Experiências Sensoriais e Educativas na Exposição

A mostra oferece experiências para todos os públicos, incluindo reproduções de obras em relevo para o público “conhecer com as mãos”, com descrições em braile. Obras como “Regresso de Um Proprietário de Chácara” e “Caboclo”, de Debret, e suas releituras contemporâneas, estão acessíveis de forma tátil. Uma seção de arte-educação convida os visitantes a interagir com mesas escolares, quebra-cabeças e jogos de memória que unem as obras de Debret às suas releituras atuais.

Um espaço dedicado a fotos do desfile de carnaval da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro de 1959, com tema Debret, permite sentir a vibração do samba-enredo. A exposição “Debret em Questão – Olhares Contemporâneos” integra a Temporada França-Brasil 2025 e fica em cartaz no Museu do Ipiranga da USP até 17 de maio de 2026, de terça a domingo, das 10h às 17h. A entrada é gratuita.